mãospoema

duas mil noites atravessam os meus dedos

lá fora o mundo precisava inexistir, de espera — o som

de dentro do quarto o martelar de uns gestos — únicos

ainda seca, crua demais, por fim indissolúvel — a colcha vazia

até virem os olhos fechados, o escape, a ternura imaginada, o ímpeto

zooms por baixo das tentativas movimentam-se a uma fresta meredith-monk

de pecados sem lâmpadas, a respiração que se perde, violinos tocando cantatas

o tempo todo

na cabeça

o poema transvira-se

e é quando mantenho a impressão de que

umedecendo-se entre um desvão de serenidade e loucura

todas as palavras passaram por mim

aturdidas, sem sintaxe, galopantes, rapidamente, e mais, ao mais…

ainda, preguiçosas-já, distendidas, e(n)fim

vasculham duas mil estrelas as noites já sem pudor, esvoaçantes, lá

na parede do quarto, tremulando, telas floral fields — os seus

céus azuis, alaranjados, três linguagens se arrepiaram a toque de caixa

e tudo verdeia de novo

devagar

impresso é de certo o gosto de combinar as palavras —

(que) redemoinham por dentro, entram e saem, esticam-se, crescem —

o humano, a carne, no chão, pro céu, que escorre —

em cinco pontas, penetrando, indispondo, e lambendo, e entrecursando

a noite

como rio

de um poema

que se espera de

vorar

duas mil “noites” – Copyright © 2020 Roberta Simão

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